O que a COP 30 trouxe para o agronegócio brasileiro

A COP 30, realizada em Belém (Pará) entre 10 e 21 de novembro de 2025, representa um marco para o agronegócio nacional. O setor que antes era visto quase exclusivamente pela ótica da produção ganha agora destaque como protagonista da agenda de clima, restauração, inovação e financiamento. A seguir, os principais avanços, acordos e desafios que emergiram; e o que isso significa para quem atua em grãos, oleaginosas, terras produtivas e cadeias agrícolas.

1. Iniciativa RAIZ – Mobilização de recursos para terras agrícolas degradadas

O Brasil lançou durante a COP 30 a iniciativa chamada RAIZ (Resilient Agriculture Investment for Net Zero Land Degradation), concebida para mobilizar recursos e tecnologias voltadas à recuperação de terras agrícolas degradadas no mundo inteiro.

  • A iniciativa conta com o apoio de oito países parceiros (incluindo Austrália, Canadá, Japão, Reino Unido, Noruega) e tem estimativa de destravar até US$ 90 bilhões em investimentos para restauração agrícola, frente a uma lacuna estimada em US$ 105 bilhões no setor.
  • Para o agronegócio brasileiro isso significa:
    • acesso a novas fontes financeiras vinculadas ao clima e à restauração de terras;
    • demanda crescente por práticas que comprovem recuperação, rastreabilidade e uso sustentável do solo;
    • oportunidade de diferenciar produtos agrícolas com credenciais de sustentabilidade e conformidade ambiental.
  • Esse movimento sinaliza que terras hoje subutilizadas ou degradadas podem virar ativos estratégicos para produtores que investirem em inovação, monitoramento e governança ambiental.

2. Financiamento climático e adaptação para o setor agrícola

Outra conquista importante da COP 30 foi a aprovação de decisões que afetam diretamente a agricultura sob o prisma clima-produção. Entre elas:

  • A meta de triplicar o financiamento global de adaptação até 2035, com destaque para países em desenvolvimento, o que abre espaço para investimento em agricultura resiliente, infraestrutura rural, gestão hídrica e combate aos eventos extremos.
  • A inclusão explícita da agricultura e uso da terra na agenda de adaptação e financiamento climático. O setor deixa de ser apenas fornecedor e passa a integrar o núcleo das negociações.
  • A COP 30 também trouxe visibilidade ao setor como parte da solução e não apenas do problema.

Para o agronegócio isso representa que governanças agrícolas, cadeias produtivas e origens de produtos deverão demonstrar como incorporam práticas resilientes e dados técnicos para acessar esses fundos. Quem atuar com clareza técnica e compromisso socioambiental estará em vantagem competitiva.

3. Cooperação internacional e inovação tecnológica no agro

Além de recursos, a COP 30 reforçou que tecnologia, ciência de dados, rastreabilidade e uso eficiente da terra serão diferenciais no campo. Exemplos:

  • A Embrapa e outras instituições brasileiras firmaram acordos com países da África para transferência de tecnologia, melhoria de sistemas agrícolas e apoio à segurança alimentar, destacando o papel brasileiro em cadeia global de inovação agrícola.
  • O documento “Caminhos do Agro: Inovação pelo Clima”, lançado pela CropLife Brasil e pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), posicionou a agricultura brasileira como baseada em ciência e apta a integrar conservação e eficiência.
  • A agenda de restauração, digitalização e uso de dados territoriais ganhou destaque como requisito para participação da agricultura nas novas cadeias globais de valor.

Para os produtores e empresas de agronegócio, isso implica necessidade de adoção de sistemas de monitoramento, rastreabilidade de origem, certificações ambientais e integração com plataformas digitais – não como novidade, mas como condição de negócio.

4. Legado e desafios para a cadeia produtiva brasileira

A COP 30 deixou um legado relevante para o agronegócio no Brasil, mas também inúmeros desafios que exigem atenção estratégica.

Legado:

  • Consolidação do agro na agenda climática, com papel reconhecido na adaptação, restauração e financiamento. A Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) avaliou que o grande legado da COP 30 para o agronegócio brasileiro é a consolidação de uma agenda climática robusta e colaborativa.
  • Abertura de fontes de financiamento e a visibilidade internacional para práticas agrícolas sustentáveis, especialmente para terras degradadas ou subutilizadas. O governo brasileiro reafirmou esse compromisso por meio do programa Programa Caminho Verde Brasil, que prevê a recuperação de áreas degradadas, uso de ciência e tecnologia para fortalecer a agricultura de baixo carbono e ampliar a competitividade do Brasil no cenário global.
  • Fortalecimento do discurso de que sustentabilidade, ciência e governança são requisitos competitivos no mercado global.

Desafios:

  • A tradução das promessas em recursos efetivos: a meta de triplicar financiamento até 2035, falta detalhamento e prazos claros.
  • A necessidade de infraestrutura de dados, monitoramento territorial e rastreabilidade que muitos produtores ainda não possuem.
  • A escala de investimento necessária para restaurar e tornar produtivas grandes áreas degradadas, o que exige coordenação entre público e privado.
  • A urgência de atender mercados que exigem conformidade ambiental mais rigorosa, customização logística e transparência de origem.

5. Implicações práticas para empresas e produtores agrícolas

Para o setor de agronegócio no Brasil, especialmente para empresas que atuam em grãos, oleaginosas, terras e cadeias agrícolas, os seguintes apontamentos práticos surgem:

  • É hora de mapear e quantificar áreas degradadas ou subutilizadas na operação, essas áreas podem se tornar oportunidade com a iniciativa RAIZ.
  • Revisar práticas de rastreabilidade, origem e governança de uso da terra – compradores internacionais e financiadores vão demandar dados robustos.
  • Investir em inovação, tecnologia de solo, monitoramento aéreo/terrestre, restauração e política de uso do solo – as cadeias agrícolas que adotarem isso estarão melhor posicionadas.
  • Avaliar parcerias internacionais e mecanismos de financiamento climático/adaptação para agricultura – aproveitar os recursos que estão sendo mobilizados globalmente.
  • Preparar-se para nova dinâmica regulatória – o agro será cada vez mais integrado à agenda de clima, e não apenas como fornecedor primário, mas como ator estratégico de soluções.

Conclusão

A COP 30 marcou uma virada no modo como o agronegócio brasileiro é visto no contexto global. De setor produtivo isolado, ele se transforma em agente de transformação, responsável por restaurar terras, usar tecnologia, demonstrar governança ambiental e operar em cadeias que valorizam sustentabilidade. Os acordos de financiamento, a iniciativa RAIZ, a cooperação internacional em ciência e tecnologia, são peças desse novo jogo.

Para empresas que atuam no núcleo da cadeia agrícola, com foco em demandas globais, clientes exigentes e mercados internacionais, a hora de agir é agora. Implementar rastreabilidade, monitoramento territorial, inovação e parcerias estratégicas não é opcional. É condição para competir.

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